Buchecha é hoje um artista de sucesso. Mas, em sua memória, carrega tudo o que viveu. Por isso, guarda em uma maleta os rastros de sua história. E também da de Claudinho, seu parceiro musical e melhor amigo.
Tudo começou aos 7 anos, lá no Boaçu, região pobre de Niterói. Buchecha foi nadar no fundo do valão, onde a molecada costumava brincar. Mas tinha chovido no dia anterior e, dessa vez, a correnteza estava forte. Buchecha ia morrer afogado naquele dia. Mas Claudinho, chegou lá e o salvou, como um anjo da guarda. Viraram melhores amigos. Mas a família de Claudinho se mudou da comunidade. Os meninos não tiveram nem a chance de se despedir.
Saiu da escola na quarta série e foi vender mariola no centro de Niterói. Um dia, voltando do serviço, teve que defender a mãe das ameaças de um padrasto violento. Buchecha teve que ir morar lá no Salgueiro, área pobre de São Gonçalo, com uma tia que só conhecia de foto. Natalina. A fonte das mariolas secou. O jeito foi vender amendoim com o pai no Centro do Rio.
Velho Claudino ainda estava nos vícios. E cada dia era uma luta. Mas o dia em que Claudinho e Buchecha se reencontraram por acaso em um baile funk na Favela do Salgueiro foi uma festa. Claudinho quis até fazer uma dupla de MCs. Passou dias, meses e anos, insistindo na ideia. Mas Buchecha não tinha autoestima para isso. Se sentia feio demais para ser artista. E foi levando do jeito que dava. Mas Buchecha mudou de ideia quando viu o sucesso que os funkeiros faziam com a mulherada. A ficha caiu num baile. Cidinho e Doca estavam no palco. Rap da Felicidade. A mulherada foi ao delírio. Foi aí que Buchecha descobriu que não era ser bonito que te transformava em artista. Era ser artista que te transformava em bonito.
Topou a aventura. Descobriu que tinha talento e fez muito sucesso junto a Claudinho, o anjo que passou e mudou tudo em sua vida de menino pobre e sofrido.
Rap do Salgueiro, Carrossel de Emoções, Conquista, Quero te Encontrar, Xereta, Só Love e, claro, Nosso Sonho. Além de fazer música, Buchecha casou, fez família, cresceu como artista e emplacou sucesso atrás de sucesso. Disco de ouro, platina e diamante. Colocou a família toda numa casa boa, montou um negócio para o pai e colocou um projeto social na comunidade. Mas nada do que é bom dura para sempre. O tráfico tomou de volta a influência sobre as crianças. O pai recaiu nos vícios e deixou o negócio ir pelo ralo. Até que o pior chegou: um acidente de carro tirou a vida de Claudinho. Buchecha nem teve tempo de se despedir do amigo.
Foi muito difícil superar, mas Buchecha encontrou forças. Buscou apoio na família e tratou de resgatar o pai para o lado certo da vida. Como tinha sido resgatado por Claudinho quando era um menino e nadava no valão.
E assim foi, até um dia em que seu pai voltou a mexer com o que não devia. Acabou brigando com um vizinho por causa de um maço de cigarros e levou dois tiros nas costas. É claro que Buchecha sofreu. Mas dessa vez ficou em paz por ter se reconciliado com o velho Claudino enquanto era tempo. Era isso que passava pela cabeça de Buchecha no dia em que voltou a revolver suas memórias. Foi ali, na solidão de sua casa, diante da maleta em que guarda os rastros da sua história e da de Claudinho.